25 de Outubro de 2009

Gosto de Saramago. Pela simplicidade e humildade que lhe são tão caras, mas sobretudo pela eloquência das suas palavras. Por ser directo e não menos honesto. Por dizer o que pensa sem nada (ou muito pouco) recear. Por poder, "embora não pudesse". Por ser humilde, ainda que prefiram qualificá-lo de arrogante e - imagine-se! - ignorante. Gosto de José Saramago por ser quem é e pela palavra pouco fácil mas tão sábia. De tal maneira sábia que é, propositadamente, incompreendida, muitas vezes questionada. Gosto dele porque aceito a verdade e, ainda que relativa (porque a absoluta não existe), sei que algures entre as demais subjectividades predomina um núcleo sólido que é, por isso, inquestionável. Porque todas as verdades, mesmo as aparentes, possuem um centro sobre o qual gravitam. E desse ninguém duvida, ainda que optem por não observá-lo (que é diferente de ver) ou antes pintá-lo com o negro das aparências. As mesmas que nos levam à missa ao domingo mas nos fazem esquecer de estender a mão a um mendigo que todos os dias dorme na esquina de nossa casa. Precisamente aquelas que nos fazem largar uma criança, um animal ou um idoso num qualquer canto do mundo simplesmente porque nos cansámos dele, ainda que justifiquemos tal acto com a falta de tempo ou de espaço. Gosto de Saramago porque sei que ele acredita, mas de uma forma diferente, o que não significa menos sincera. Talvez o faça à noite, como Ernest Hemingway. Citando António Lobo Antunes em entrevista a Judite de Sousa no programa "Grande Entrevista", quem sabe acredite mesmo, "às vezes, à noite", como o escritor norte-americano. Sozinho. Porque aquilo que existe não precisa dos outros para ser. É precisamente na necessidade de provar que reside o risco da mentira. Todos corremos esse risco. Há quem caia ou não nele. Saramago prefere nitidamente não cair. Limita-se a sentir e a fazer por si sem precisar do reconhecimento dos outros. Porque quem faz, fá-lo mesmo por gosto e não precisa de aprovação para isso. A verdadeira generosidade não existe em público, mas sim no anonimato da dádiva, da benção ou da bravura. Ser generoso significa dar, mas para tal é preciso que aprendamos a compreender do que o outro precisa. E é tão mais simples quando passamos a olhá-lo de igual para igual, sem que para isso seja necessário beijá-lo na missa.     

publicado por Inês Alves às 01:46
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