21 de Março de 2009

Fernando Pessoa escreveu, um dia: "O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente". E estava certo. Um poeta, um escritor, um amante das línguas escreve, muitas vezes, sob o comando da ilusão, ainda que seja sobre a realidade que pretenda falar. É uma ideia difícil de compreender para quem não compreende também as demandas daqueles cujas palavras comandam a vida, mas é a mais pura das verdades. Quando transcritas para o papel, as angústias de quem escreve duplicam-se e transformam-se em farpas que ferem quem as lê. Mas é precisamente esse o objectivo. Se assim não fosse, que sentido teria a escrita? Para ser apreciada e, por alguns, compreendida, ela tem necessariamente que magoar. É no pensamento que as palavras se formam e é nele que, enleando-se, ganham profundidade. No papel, adquirem um só sentido: despertar consciências. 

Mas, entenda-se bem: não é porque escrevo sobre amor que estou apaixonada, nem é porque escrevo sobre saudade que estou triste. Escrevo porque, no momento preciso em que teclo, sinto necessidade de fazer fluir as palavras que se amontoam no pensamento, independentemente do significado que possam ter e da intensidade com que se concretizem. A saudade não está assim tão próxima da tristeza, mas antes muito mais da alegria, porque só se sente saudade daquilo que foi realmente bom.

Por isso, que acabem os pensamentos de que só estamos felizes quando dizemos piadas. A felicidade é uma filosofia de vida. Conheço pessoas que sempre fizeram os outros rir mas que nunca foram capazes, elas próprias, de mostrar um sorriso verdadeiro. Eu posso escrever sobre a complexidade da vida - que é, de facto, algo que me inquieta (sou uma insatisfeita por natureza, que hei-de fazer?) - mas quem me conhece sabe que tenho, sempre, um sorriso no rosto e uma gargalhada pronta a dar. Falo pelos cotovelos, apesar de, no princípio, parecer calada. Sou feliz, à minha maneira, como todos somos. Não preciso de escrever sobre alegrias para provar isso. Assim, para os que pensam que escrever saudade é sinónimo de tristeza, o meu lamento por estarem tão profundamente errados. Saibam que falar sobre saudade é antes o melhor gesto de reconhecimento alguma vez visto.  

publicado por Inês Alves às 15:59

"Eu quero morrer de amor como os rios morrem no mar,

Eu quero o pranto das rosas nas bocas que desfolhei..."

 

Kátia Guerreiro, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra: um concerto simplesmente espectacular.

publicado por Inês Alves às 02:31
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